Quando o espetáculo é gratuito, mas o consumo é o objetivo, quem está no centro do São João: o povo ou os patrocinadores?

Em meio à programação dos festejos juninos em grandes polos do Nordeste, episódios recentes chamaram a atenção para uma mudança importante no modelo dessas festas. Em um dos casos mais comentados, uma grande marca patrocinadora viabilizou a realização de um show gratuito de uma artista de grande alcance nacional dentro da programação de São João.

A ação foi recebida com entusiasmo por parte do público, mas também reacendeu um debate que vem se intensificando nos últimos anos: qual é o papel do mercado na definição do que ocupa os palcos juninos?

Mais do que a presença de um nome específico, o que está em questão é o modelo que se consolida. Quando o acesso ao espetáculo é facilitado, mas vinculado a estratégias de consumo, os festejos passam a operar também como grandes plataformas de ativação de marca.

A discussão também passa pelas condições de trabalho dos artistas.

Para Rosiane Pedrosa, a valorização do forró precisa ir além da visibilidade.

“O poder público precisa olhar com mais responsabilidade para o forró. Além da perda de espaço, ainda lidamos com cachês baixos, sem reajuste, e pagamentos que chegam a levar até 9 meses. Isso precisa ser corrigido, com prazos de até 90 dias.”

E, nesse cenário, uma pergunta inevitável emerge:

O São João ainda é do forró?

O ciclo junino sempre foi um dos momentos mais representativos da cultura nordestina. Muito além das festas, reúne danças, comidas típicas, músicas e costumes que atravessam gerações.

No centro dessa tradição, historicamente, está o forró.

Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN, o forró não é apenas um gênero musical. É um sistema cultural que articula música, dança, modos de vida, saberes tradicionais e formas de sociabilidade.

O forró nos festejos juninos

Apesar de ser um gênero presente ao longo de todo o ano, é no mês de junho que o forró ganha maior visibilidade, ocupando ruas, praças e palcos em todo o Nordeste.

Historicamente, o forró sempre foi o principal elemento musical do São João.

A sanfona, o triângulo e a zabumba não apenas embalam as festas, mas ajudam a construir a identidade sonora e simbólica desse período.

Quando o forró perde espaço nos festejos juninos, o impacto vai além da programação artística — atinge diretamente a preservação da cultura nordestina.

Entre tradição e mercado

A ampliação dos eventos e a busca por grandes públicos trouxeram uma lógica mais comercial para o São João.

A escolha das atrações passa, cada vez mais, por critérios de alcance, visibilidade e retorno financeiro, influenciando diretamente a presença do forró nas programações.

O debate, no entanto, não se trata da exclusão de outros gêneros.

A questão central é o equilíbrio.

Se o São João é uma festa construída a partir do forró, qual o limite para sua descaracterização?

A ampliação de estilos nos palcos juninos

Essa mudança na lógica de programação também se reflete na presença crescente de artistas de outros gêneros musicais nos festejos juninos.

Nos últimos anos, tornou-se comum a inclusão de nomes do sertanejo e de outras vertentes da música popular brasileira — como Ludmilla, Anitta e Pabllo Vittar — em espaços que tradicionalmente eram ocupados por artistas do forró.

A presença desses artistas amplia o alcance dos eventos e atrai novos públicos, mas também levanta questionamentos sobre o impacto dessa escolha na identidade dos festejos.

Quando essas atrações passam a ocupar os palcos principais, muitas vezes com maior investimento e visibilidade, o forró — especialmente em sua vertente mais tradicional — tende a ser deslocado para horários secundários ou espaços alternativos.

O equilíbrio necessário

A presença de diferentes estilos musicais nos festejos juninos não é, por si só, o problema.

A diversidade faz parte da dinâmica cultural e também dialoga com novos públicos. O público quer ouvir, dançar e viver diferentes experiências — e isso é legítimo.

No entanto, esse movimento exige equilíbrio.

Os artistas e mestres do forró, responsáveis por manter viva essa tradição ao longo de décadas, também precisam ocupar espaços de destaque — inclusive nos palcos principais das festas.

Não se trata de limitar a programação, mas de garantir que o forró continue sendo o eixo central de um evento que nasce a partir dele.

Quando essa centralidade se perde, o risco não é apenas estético ou musical, mas simbólico.

É a própria identidade do São João que entra em transformação.

Patrimônio cultural e continuidade

O reconhecimento do forró como patrimônio cultural traz consigo uma responsabilidade: garantir sua continuidade como prática viva.

Esse princípio, defendido pelo IPHAN e também presente nas diretrizes da UNESCO, reforça que a salvaguarda depende da transmissão, da presença e da valorização concreta da cultura nos territórios.

Sem espaço, não há continuidade.

O lugar do forró no São João hoje

As escolhas feitas na programação dos festejos juninos refletem diretamente quais manifestações culturais serão valorizadas.

Mais do que entretenimento, o São João é também um espaço de afirmação cultural.

Diante desse cenário, a pergunta permanece:

O São João ainda é do forró?

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